segunda-feira, 5 de março de 2012

Lapinha

(Baden Powell / Paulo César Pinheiro)
Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha       Refrão
Calça, culote, paletó, almofadinha
Calça, culote, paletó, almofadinha

Vai meu lamento vai contar
Toda tristeza de viver
Ai a verdade sempre trai
E às vezes traz um mal a mais
Ai só me fez dilacerar
Ver tanta gente se entregar
Mas não me conformei
Indo contra lei
Sei que não me arrependi
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir

Refrão

Sai minha mágoa
Sai de mim
Há tanto coração ruim
Ai é tão desesperador
O amor perder do desamor
Ah tanto erro eu vi, lutei
E como perdedor gritei
Que eu sou um homem só
Sem saber mudar
Nunca mais vou lastimar
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir

Refrão
Adeus Bahia, zum-zum-zum
Cordão de ouro
Eu vou partir porque mataram meu besouro

Corria o ano da graça de 1968, o tal “ano que não acabou”, e a TV Record não sabia o que fazer com o sucesso que tinha em mãos: os famosos Festivais.
Em 1966, o país se dividia entre “A Banda”, de Chico Buarque, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Téo de Barros, forçando os jurados e a Direção da emissora a armar um empate para não frustrar seus telespectadores, de um lado, nem provocar a ira dos homens de verde-oliva que perambulavam pelos corredores da Avenida Miruna, de outro (mais sobre o causo, aqui).
Em 1967, a vitória do protesto velado de “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam (“quem me dera agora, eu tivesse a viola pra cantar”), escondia no segundo lugar um trágico “Domingo no Parque” (Gilberto Gil), com direito a sangue e sorvete de morango; no terceiro, a vertigem apocalíptica  de “Roda Viva” (Chico Buarque); e, no quarto lugar, o manifesto tropicalista sem lenço e sem documento, “Alegria, Alegria” (Caetano Veloso).
Com o Regime Militar dando seus primeiros sinais de recrudescimento rumo ao famigerado AI-5, para que o ano de 1968 não acabasse mal, seria prudente que a Direção da Record tirasse esse abacaxi de seu colo.
Mas como fazê-lo sem desprezar o estrondoso sucesso de público e, principalmente, de renda?
Resposta: abrindo espaço para o pessoal da chamada “Velha Guarda”. Assim surgiu a "I Bienal do Samba", com Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Cartola, João da Baiana, entre outros, dividindo espaço com os mais jovens na telinha e diminuindo, sensivelmente, o risco de alguma insurgência contra os militares.
Primeiro porque o samba sempre foi considerado – erroneamente, a meu ver – uma música “alienada”. Além disso, os mestres de nossa música eram doutores em samba, mas não tinham lá muita familiaridade com revoluções, fossem elas estéticas, tropicalistas, ou bolcheviques.
Baden Powell, à época, já desfrutava de bastante prestígio, principalmente por suas parcerias com Vinícius de Moraes, mas, desta vez, queria sangue novo para o novo Festival. Foi à casa do primo, João de Aquino, e roubou-lhe o parceiro, o precoce e já maduro letrista Paulo César Pinheiro, então com 16 anos e ainda imberbe.
Baden mostrou-lhe um samba de roda que aprendera na Bahia com seu amigo e capoeirista, Canjiquinha. O tema havia sido composto pelo lendário Mestre de Capoeira Besouro Mangangá, ou Besouro Cordão de Ouro, famoso tanto por suas composições quanto pela coragem de enfrentar a polícia e revoltar-se contra os desmandos dos Senhores.
Paulo César Pinheiro já havia lido no romance “Mar Morto”, de Jorge Amado, algumas histórias do Mestre capoeirista que voava como um besouro para escapar da polícia.
Percebendo que o momento era propício para aquele resgate, os compositores fizeram uma segunda parte para a música do Besouro, exaltando o homem que, mesmo só, contra o erro lutava e, ante a derrota, gritava. E assim nasceu uma das mais brilhantes parcerias da música brasileira.
Inscrita no festival, por absoluta ignorância dos organizadores, “Lapinha” quase foi desclassificada por plágio. Obviamente, tratava-se de uma citação literal, uma homenagem explícita ao canto do Besouro, sem a malícia que caracterizaria o plágio.
Depois de alguma argumentação, a canção pode seguir no festival, defendida por Elis Regina, até ser premiada com o 1º lugar da "I Bienal do Samba".
Dentre os argumentos utilizados para convencer os organizadores a manterem “Lapinha” no páreo, deve estar o fato de outra canção do Besouro Mangangá ter sido citada numa música de Noel Rosa.
Eis os versos do Besouro: “Quando eu morrer, disse Besouro/ Não quero choro nem vela / Também não quero barulho / Na porta do cemitério / Eu quero meu Berimbau / Eu quero meu Berimbau / Com uma fita amarela / Gravado com o nome dela”.
Qualquer semelhança com “Fita Amarela” não é mera coincidência. Ao que se saiba, no entanto, o Poeta da Vila jamais foi acusado de plágio.
Assim, graças ao Besouro Cordão de Ouro, o abacaxi voltou intocado ao colo dos diretores da TV Record, já que, na Globo, os Festivais mantiveram seu formato tradicional e o ano de 1968 acabou com Tom Jobim e Chico Buarque vaiados durante a apresentação da vencedora, “Sabiá”.
Ainda que, para alguns, como dito acima, 1968 não tenha acabado.
Fontes:
“A Era dos Festivais – Uma Parábola” – Zuza Homem de Melo
“Prepare Seu Coração” – Solano Ribeiro
Depoimento de Baden Powell a Fernando Faro, para o programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo, em 1973.

Nota do Autor: a parte final deste texto foi editada a partir do preciso comentário de Maria Sylvia Porto Alegre.

3 comentários:

Ayumi disse...

Muito Obrigada! Adorei o Blog!

Zuza Zapata disse...

Que bacana essa matéria, Chico Buarque é um grande cara, um grande artista brasileiro, uma enorme referência em meu projeto musical tb. Convido todos aqueles que curtem o cara, a darem uma olhada no meu trabalho.Obrigada e salve Chico!

Maria Sylvia Porto Alegre disse...

"Sabiá" venceu o Festival Internacional da Canção, promovido pela Globo no Rio, sem relação com a Record.