segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pisa na Fulô

(João do Vale / Ernesto Pires / Silveira Júnior)

Pisa na fulô, pisa na fulô
Pisa na fulô, não maltrata o meu amô

Um dia desse fui dançá lá em Pedreira
Na rua da Golada e gostei da brincadeira
Zé Caxangá era o tocadô
Mas só tocava pisa na fulô

Sô Serafim cuchichava a Marvió
Sô capaz de jurá que eu nunca vi forró mió
Inté vovó garrô na mão de vovô
Vão’bora meu veinho, pisa na fulô

Eu vi menina que nem tinha doze ano
Agarrar seu par, também sair dançando
Satisfeita e dizendo:
Meu amô, ai como é gostoso, pisa na fulô

De madrugada Zéca Caxangá
Disse ao dono da casa
Num precisa me pagá
Mas por favô arranje outro tocadô

Que eu também quero pisa na fulô
Vem cá menina, que eu também quero
Que eu também vou pisa na fulô
Pisa na fulô, não maltrata o meu amô.


João do Vale foi um homem de duas faces.
A primeira é a do menino, que, de tão festeiro, aos sete anos, ganhou do avô o apelido de “Pé de Xote”. Sua alegria, seu ritmo, sua espontaneidade estão presentes em “Pisa na Fulô”, composição de 1957 em que retrata os arrasta-pés de sua cidade natal, Pedreira, no Maranhão, feita assim que chegou ao Rio de Janeiro e que, pela voz do cantor Ivon Curi – um galã, á época, acreditem – espalhou a fama de João do Vale, deixando todo o Nordeste orgulho do sucesso de seu filho.
A outra face de João também remonta sua infância. Quinto de oito filhos de agricultores, sem terra e muito pobres, fugiu da miséria nordestina aos quinze anos. Antes de chegar ao Rio, em paus-de-arara e pegando carona nas boleias de caminhões, passou por Piauí, Ceará, Bahia e Minas Gerais. Foi ajudante de caminhão, ajudante de pedreiro, trabalhou no garimpo, fez de tudo para sobreviver.
Até cantar.
Fugiu para virar artista, equilibrista, dividido entre a amargura da fome e a alegria do menino “Pé de Xote”.
No início dos anos 60, João do Vale passou a apresentar-se no bar Zicartola, reduto musical comandado por Cartola e sua mulher, Zica, sob os olhares atentos de Sérgio Cabral, Hermínio Belo de Carvalho, Zé Ketti, Paulinho da Viola e outros bambas. Ali, João passou a conviver com a nata da intelectualidade brasileira e a compor uma música engajada, ácida, que denunciava as agruras do nascente regime militar e as mazelas de um Brasil que não saía nos jornais, não estava nas revistas, não era Bossa Nova.
Em 1964, foi convidado por Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, para integrar o show “Opinião”, marco na história da música e do teatro brasileiros, que reunia João do Vale, Zé Keti e Nara Leão. Respectivamente, o nordestino, o favelado e a “pobre menina rica”. Um retrato do Brasil.
Agora, ele não era, apenas, o compositor de “Pisa na Fulô”. Era o autor de “Carcará”, seu maior sucesso, uma violenta crítica à ditadura, eternizada na voz da Maria Bethânia - que substituíra Nara Leão no show "Opinião".
O Brasil passava a conhecer a dura realidade do menino pobre de Pedreira. João do Vale estava vingado.
Certa noite, durante a temporada do show “Opinião” em São Paulo, depois do espetáculo, João foi tomar das suas no Bar Redondo, que ficava perto do Teatro de Arena. Lá pelas tantas, foi abordado por um coronel nordestino, aparentemente muito rico, que se deslocara de suas terras especialmente para contratá-lo para um fazer um show, no sertão de Pernambuco. Feito o convite, o Coronel avisa:
- Mas lá tu não precisa cantar essas músicas novas, não, que o povo gosta mesmo é de “Pisa na Fulô”!
João do Vale já ia declinando do convite quando o Coronel, percebendo o movimento de recusa de seu interlocutor, declinou o valor da proposta. Era irrecusável. João não podia declinar do convite.
Uma semana depois, sob sol escaldante e em meio a um foguetório, João desembarcava, em avião fretado, na cidade do Coronel.
Antes de iniciar o show, sob os olhares atentos do padre, do sacristão, do prefeito, da cidade, o Coronel anuncia o compositor de “Pisa na Fulô”.
João do Vale é ovacionado e a multidão vai logo entoando os primeiros versos da canção:
- "Pisa na fulô, pisa na fulo, pisa na fulô, não maltrata o meu amô”.
João entra na dança e comanda a galera:
- “Pisa na fulô, pisa na fulo, pisa na fulô, não maltrata o meu amô”.
O compositor cantava, alegre, dançava, comandava coreografias, e seguia em sua canção:
- “Pisa na fulô, pisa na fulo, pisa na fulô, não maltrata o meu amô”.
O tempo foi passando, o público se cansando, mas João parecia não querer se desfazer da lebrança de seus tempos de “Pé de Xote” e prosseguia, em evoluções coreográficas, decantando os bailes da Pedreira de sua infância:
- “Um dia desse fui dançá lá em Pedreira, na rua da Golada e gostei da brincadeira..."
Até chegar, novamente, ao refrão, que já começava a soar insuportável aos ouvidos da multidão.
- "Pisa na fulô, pisa na fulo, pisa na fulô, não maltrata o meu amô”.
Lá pelas tantas, percebendo que o repertório não sairia daquilo e temendo se indispor com o povaréu, o Coronel, sutileza de praxe, aproximou-se do cantor:
- Pelo amor de Deus, canta outra música que essa o povo não agüenta mais.
Imediatamente, João fez sinal à orquestra, parou de cantar e, de modo grave, levantou os braços.
A galera, atônita, calou-se.
Fez-se o silêncio.
João do Vale, então, entoou, à capela, “Sina de Caboclo”, uma das músicas mais engajadas do repertório do show "Opinião":
- “Eu sou um pobre caboclo, /Ganho a vida na enxada. /O que eu colho é dividido / Com quem não planta nada. / Se assim continuar / vou deixar o meu sertão,/ mesmos os olhos cheios d'água e com dor no coração.” (vide letra completa nos comentários, ou vejouça no You Tube)
Em pânico, o Coronel invadiu o palco, pegou o microfone e, aos berros, desesperado, retomou o enfadonho repertório:
- “Pisa na Fulô, Pisa na Fulô, Pisa na Fulô, não maltrata o meu amô”!!

Fonte: causo contado pelo Mestre Rolando Boldrin, no seu excelente “Senhor Brasil”, na TV Cultura.

Um comentário:

Luís Pini Nader disse...

Sina do Caboclo
(Zélia Barbosa/joão Do Vale/J.B. De Aquino)

Mas plantar prá dividir
Não faço mais isso, não.
Eu sou um pobre caboclo,
Ganho a vida na enxada.
O que eu colho é dividido
Com quem não plantou nada.
Se assim continuar
Vou deixar o meu sertão,
Mesmos os olhos cheios d'água
E com dor no coração.
Vou pro Rio carregar massas
Pros pedreiros em construção.

Deus até está ajudando:
Está chovendo no sertão !
Mas plantar pra dividir
Faço mais isso não.

Quer ver eu bater enxada no chão,
Com força, coragem, com satisfação?
É só me dar terra prá ver como é :
Eu planto feijão, arroz e café ;
Vai ser bom prá mim e bom pró doutor.
Eu mando feijão, ele manda trator .
Vocês vai ver o que é produção !
Modéstia á parte, eu bato no peito :
Eu sou bom lavrador !

Mas plantar pra dividir,
Não faço mais isso não.