quinta-feira, 13 de novembro de 2008

João e Maria


(Sivuca/Chico Buarque)
1977

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim


1977 © by Cara Nova Editora Musical Ltda. Av. Rebouças, 1700 CEP 057402-200 - São Paulo - SP, Marola Edições Musicais
Todos os direitos reservados. Copyright Internacional Assegurado. Impresso no Brasil

A melodia é de Sivuca e data de 1947. Sivuca a compôs aos 17 e usava sua valsa recém saída do forno para coroar as lindas princesas de seus sonhos com belas serenatas ao luar do Recife. O pião já não era seu brinquedo, seu bicho preferido tinha outro sexo e andava nua em seu país. Seu futuro parceiro, na época com 3 anos, ainda mal armava seu bodoque.
E, por trinta anos, assim seguiu esta música, sem nome, servindo às serenatas de seu autor. Até que o dramaturgo Paulo Pontes, que estava organizando o repertório para uma apresentação de Elizeth Cardoso no Canecão, decidiu que ao show cairia bem uma parceria entre o já consagrado Chico Buarque e o Mestre Sivuca. Resolveu promover o encontro.
Sivuca, pensando no vozeirão da Divina Elizeth, desenterrou sua valsa romântica. Mas Chico estava em outra. Estava mergulhado no universo infantil, havia acabado de fazer a versão para o português do musical italiano “Saltimbancos”. A “idade” da música também influiu, como explica o próprio compositor em entrevista a Geraldo Leite (Rádio Eldorado, 1989): “Cada música tem uma história. Eu tenho uma parceria com o Sivuca que é engraçada. Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1947, por aí. Eu falei: "Mas isso foi quando eu nasci." A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: "Fiz essa música em 47." Aí pensei: "Mas eu criança..." e me levou pra aquilo. Cada parceria é uma história. Cada parceiro é uma história."
O nome da canção remete ao clássico conto de fadas dos irmãos Grimm, no qual duas crianças que se perdem na floresta por terem marcado o caminho com migalhas de pão e são capturadas pela bruxa malvada.
A música que servira de base para as cantadas de Sivuca seguiu outro caminho, aderiu ao universo infantil e acabou por abrigar uma conversa de crianças.
A canção não integrou o repertório de show de Elizeth. Não tinha mais cabimento. A primazia da primeira gravação coube a Nara Leão, princesa linda de se admirar, em dueto com o próprio Chico, arranjos de Sivuca, João Donato no teclado, Luizão Maia, contrabaixo, Meireles, flauta, o mesmo Sivuca no violão e na sanfona, e Paulinho Braga, bateria. A música estourou com a participação na trilha sonora da novela Dancin`Days e, até hoje, não pode faltar nos shows de Chico Buarque.
Agora, era fatal que o faz-de-conta terminasse assim. Em 14 de dezembro de 2006, Sivuca sumiu do mundo sem nos avisar. A música brasileira perdeu um Mestre.
Pra lá deste quintal, com a abertura política, finalmente, a noite teria um fim. Chico Buarque, crítico mordaz da ditadura militar, agora era o herói.
Quanto ao cavalo que fala inglês, consta que o próprio Chico nunca soube muito bem o que ele mesmo quis dizer. De acordo com o amigo e parceiro Francis Hime, deve ser “um cavalo muito educado."
Fontes.:
-Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989
- Livro 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34
- http://www.gafieiras.com.br/Display.php?Area=Entrevistas&SubArea=EntrevistasPartes&ID=29&IDArtista=28&css=1&ParteNo=14

5 comentários:

MARIA APARECIDA VIANA disse...

estou trabalhando com essa música e o gênero resenha durante minhas aulas, posso utilizar a sua? Obrigada Cida Viana

MARIA APARECIDA VIANA disse...

estou trabalhando com essa música e o gênero resenha durante minhas aulas, posso utilizar a sua? Obrigada Cida Viana

Pedro josé disse...

Muito bom, vou trabalhar com alunas do curso de Pedagogia,sobre o faz de conta, é bem apropriada.

Ernesto Batista Filho (Ernestinho) disse...

Muito bacana o texto do que está por trás dessa música...parabéns...viva a boa música popular brasileira, viva Sivuca, viva Chico e parabéns pelo blog..

Mina Flor disse...

Admiro muito as letras e músicas do Chico. João e Maria é uma das minhas prediletas. Sempre achei este texto extremamente político. Ele se refere aos alemães e seus canhões (segunda guerra mundial), aos artistas, escritores etc... que durante a ditadura "guardaram" suas armas e "ensaiaram um Roque para as matinês " e a princesa que desapareceu deste mundo são os inúmeros presos políticos que foram assassinados nos campos de concentração ou que na América do sul simplesmente desapareceram sendo assasinados pelos militares. Esses são apenas uns aspectos sobre esta letra extraordinária. E para aquele que não quer essa interpretação Chico oferece um mundo de estórias infantil. Isso é arte!