quinta-feira, 5 de abril de 2007

Tonga da Mironga do Cabuletê

Toquinho e Vinicius de Moraes


Eu caio de bossa eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa xingando em nagô
Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê



1970.
Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco “A Arca de Noé”, fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino.
Encontram o Brasil em pleno “milagre econômico”. A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais. O poeta é visto como comunista pela cegueira militar e ultrapassado pela intelectualidade militante, que pejorativa e injustamente classifica sua música de easy music.
No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria.
Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”.
O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves.
Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.
E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”.

Fonte: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

25 notas musicais:

Professor Moisés Basílio disse...

Olá Luiz, acabo de fazer minha primeira incursão no teu blog. Uma perguntinha: Posso usar os teus textos nas minha aulas? Tenho trabalhado muito o ensino de História a partir da música popular brasileira. Outra coisa, acho que seria importante citar as fontes das informações dadas no texto.

izabellamendes disse...

Lowis, Achei simplesmente FANTÁSTICO teu blog. Parabéns! Vou ficar assídua...Se eu tiver alguma historinha peculiar te mando. Ah! Vou pedir pro meu pai dar uma olhadinha também com certeza ele poderá não só colaborar como curtir esta maravilha. Muitos Bjs. Sucesso. saudades... Iza
PS: Não sei se vc sabe, Tô de "nenê". Eh muito bom....

Luís Nader disse...

Na medida do possível, citarei as fontes, já que várias informações foram colhidas ao longo dos anos e não teria, agora, condições de citá-las com precisão.
No caso de "Fiz por você o que pude", por exemplo, ouvi esta história num programa de TV há algum tempo. Onde? Produzido por quem? Não faço a menor idéia.
Se alguém se habilitar a me ajudar, será bem vindo.

Anônimo disse...

Boa noite,tomei 06 cervejas peguei um pilequinho legal,ouvi em seguida 10 vezes a tonga da mironga do cabulete,não sabia o significado.descobri agora no seu blog,show de bola,o poetinha estava com a razão,tem dias que dá vontade de mandar todo mundo tomar no cú,os políticos desonestos,os safados,tudo que não presta.A vida é pra valer já dizia o poeta,vamos tocar em frente e viver a vida de verdade sem atrapalhar o outro,tchau.

Anônimo disse...

Bom demais! Você vai ter que viver na Tonga da Mironga do Cabuletê! hahahaha!
Pra Sempre Vinícius!

Cau disse...

Adorei seu blog, parabéns!! E me diverti muito com o significado de "tonga da mironga do cabuletê".
Descobri seu blog ontem no final da tarde, justamente procurando o significado deste palavrão...rs...e o interessante, é que de manhã, levando minha filha para escola, ela me pediu um palpite para tema de uma redação que ela teria de entregar, falando sobre músicas....e eu disse: coloque como tema "Quando a música fala"....e como fala!!!!
Abçs

Alexei disse...

Passei a minha infancia ouvindo os meus pais rindo quando essa música tocava (final dos anos 1970)... Agora já sei o porquê!

poetamaurilio disse...

Gostei de sua proposta de blog.
Procurava por "tonga da mironga..."
Encontrei aqui.
Parabéns e continue!

Luiz disse...

Junto-me aqui a quantos valorizam as boas idéias. Esta sua é excelente.

Anônimo disse...

Fiquei surpresa! Gostei ainda mais da música! Boa iniciativa a deste blog... interesantíssimo!!

helena disse...

Olá,
uma pequena contribuição. Essa informação também pode ser achada no livro:
Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Parabéns pelo blog,
Helena

Anônimo disse...

Muito maneiro!!

Morri de rir sozinho.
Estava eu procurando essa música para baixar e encontri seu blog, achei muito interessante, vou divulgar.
Detalhe, Vinicius era f..., demais!!
hahahahaha

J.B.F.Jr.

Nana disse...

No wikpédia tem as traduções das palavras Tonga, mironga e kabuleté...E nenhuma tem conotação depravada...Verifiquem: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Tonga_da_Mironga_do_Kabulet%C3%AA

Luís Pini Nader disse...

Obrigado, Nana, por sua observação.
Eis o que diz o Wikipedia:
"De acordo com o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, estas palavras significam o seguinte: (1) tonga (do Quicongo), "força, poder"; (2) mironga (do Quimbundo), "mistério, segredo" (Houaiss acrescenta: "feitiço"); (3) cabuletê (de origem incerta), "indivíduo desprezível, vagabundo" (também empregado para designar um pequeno tambor que vai preso em um cabo, usado na percussão brasileira).

"Tonga", segundo o Dicionário Aurélio, pode ser uma palavra angolana para "terra a ser lavrada" ou "lavoura". É, ainda samtomensismo depreciativo, a designar descendentes de lusos, ou de serviçais, nascidos nas ilhas.
"Mironga" é, em candomblé e na macumba, "feitiço, sortilégio, bruxedo".
"Cabuleté", no mesmo léxico, é "indivíduo reles, desprezível, vagabundo".
Portanto, junatando tudo, teríamos algo como "a terra do macumbeiro vagabundo".
Minha fonte, citada abaixo do texto, é o livro do José Castelo, biógrafo do Vinícius. Segundo ele, o termo seria dito em Yorubá, dialeto africano diferente dos citados pelo Nei Lopes e demais fontes do Wikipedia.
Aqui é assim, vendo o peixe pelo preço que compro. Quem tiver mais informações, o espaço está aberto. Obrigado.

Rubia disse...

O máximo!Sua pesquisa foi legal porque traz a fonte do próprio autor!

kkkkkkkkkk

estressei? Mandei: vai pra tonga da mironga do cabuletê kkkkk

Anônimo disse...

Luiz, vou pelo Vinicius , se ele quis desabafar usando os cus das mães dos milicos então tá.

Antonio Campos disse...

Luís, na segunda linha da música, Vinícios diz: "xingando em nagô", portanto não é Yourubá, e sim nagô. Isso me lembra Nostradamus e suas interpretações. As previsões do vidente são sempre "desenhadas" para caberem nas suas verdades e aí fica fácil advinhar. Ora, se Vinícios quiz dizer isso, e seu biógrafo confirma, que seja. Entretanto, lexicamente, não é isso que está dito na frase. A não ser que eles tenham inventado um idioma próprio.

Luís Pini Nader disse...

Antonio Campos, Obrigado por seu comentário.
Segundo breve pesquisa que fiz no wikipidia, o pai dos burros virtuais, "no continente americano, o iorubá também é falado, sobretudo em ritos religiosos, como os ritos afro-brasileiros, onde é chamado de nagô". Portanto, xingar em nagô, ou yorubá dava ne mesma. O importanto era xingar rimando com "eu sou quem eu sou".

Rozelia disse...

Olá, sou professora, meu nome é Rozelia. Nunca tinha prestado muita atenção a essa música do Vinicius até um dia em que um colega também professor me contou uma historinha engraçada. Ele disse que tava no Rio ciceroniando uns americanos e alguém tocou essa música, então o gringo quis saber o que era 'a tonga da mironga do cabuletê'.Ele ficou aperreado e não soube explicar e disse que era pra mandar alguém 'fuck' em algum dialeto africano. E não é que ele sem querer, já que não sabia, acertou. Ela está em evidência novamente, pois é tema da novela das 8 global. Valeu!

Anônimo disse...

A tonga da mironga é mesmo um mistério... Tem muita bobagem tendenciosa mas acho que a sua interpretação está correta. No DVD do Toquinho que comemora seu aniversário de carreira ele diz q não dá pra falar o que significa pq é muito pesado mas disse q tem mãe pelo meio.

PS: Adorei seu site

Rafael disse...

Bem, li no blog pergunte para o doutor, que Vinicius optou pela frase por sua sonoridade e nao se prendeu a um significado. Concordo com sua explicacao, mas acredito q seja valido o comentario. Contudo, parabens pelo blog.

Anônimo disse...

Parece aquela história do fulano que falou que ouviu do cicrano, pois um vizinho da prima do cunhado contou.

Nem eles sabiam o que estavam cantando, quanto mais os "chutadores" de plantão.

Tá que nem a história da proclamação da independência, em que a subida da serra de Santos pelo D.Pedro teria sido feita em cima de um cavalo.

Hehe.

Mas a intenção é boa.
Fica pelo "folclore" da situação.

Sem "chutômetros", temos uma explanação feita pelo Prof. Doutor Claudio Moreno (UFRGS).

http://198.106.73.59/01/01_tonga.htm

[]'s.

Sônia Alves disse...

Luís Nader você é mesmo fantástico. Vou consultar mais vezes o seu blog. Vinícius foi pra mim um gênio e você conseguiu recuperar a sua ironia e seu talento por trás das letras. Beijão

SdruX disse...

Aqui e muitas outras composições não xingam só a ditadura, xingam os ouvintes tb...

Anônimo disse...

Li uma entrevista da Gesse na Revista Muito do Jornal A Tarde. Interrogada sobre o xingamento ela disse que era um segredo dela e de Vinícius e não revelou de que se tratava. Mas acredito que seja algo irreverente tal como foi sucitado acima