terça-feira, 13 de março de 2007

Fiz por você o que pude

(Cartola)

"Todo o tempo que eu viver
Só me fascina você, Mangueira
Guerreei na juventude
Fiz por você o que pude, Mangueira
Continuam nossas lutas
Podam-se os galhos, colhem-se as frutas
E outra vez se semeia
E no fim desse labor
Surge outro compositor
Com o mesmo sangue na veia

Sonhava desde menino
Tinha o desejo felino
De contar toda a tua história
Este sonho realizei
Um dia a lira empunhei
E cantei todas tuas glórias
Perdoa-me a comparação
Mas fiz uma transfusão
Eis que Jesus me 'premeia'
Surge outro compositor
Jovem de grande valor
Com o mesmo sangue na veia."


Mais um samba majestoso de Cartola.
Fundador da Mangueira, Mestre Cartola, no alto de sua majestade, expõe, em "Fiz por você o que pude", duas de suas fraquezas: o amor pela Estação Primeira, de onde Cartola andara afastado por uns tempos, e sua preocupação em fazer um sucessor, em manter viva sua linhagem no samba. Tão nobre, tão popular.
Esta canção teria sido dedicada a Nelson Sargento, filho adotivo de Alfredo Português, também fundador da Mangueira, pai e filho parceiros de Cartola.
Com visão de um verdadeiro estrategista, Sua Majestade via em Sargento, potencial para se tornar seu príncipe herdeiro. Afinal, tinha lhe ensinado os primeiros acordes do violão, quando Sargento tinha 12 anos e ainda galgava as primeiras patentes.
E o Mestre tinha razão. “Surge outro compositor com mesmo sangue na veia”. Anos depois, Neslon Sargento tranqüilizaria Cartola, ao proclamar que “o samba agoniza, mas não morre”.
Quem contou a Nelson, porém, que "Fiz por você o que pude" era dedicada a ele foi Dona Zica, a Primeira Dama da Nação Verde e Rosa.
Cartola já tinha partido, mas emocionado, em resposta, o aluno agradece o Mestre com um lindo samba, cuja letra reproduzo aqui:

"Que o amigo citou com o mesmo sangue na veia
Semente do mesmo galho
A prosseguir o trabalho que o próprio
Vento semeia
Oh! Mestre pode deixar
Não vou lhe desapontar
Jurarei perante a ti
Eu guardarei com fervor
Conservarei com ardor
O que contigo aprendi
Esta Mangueira que amas de coração
E canta com emoção
Em também cantarei
Quero conquistar-lhe novas glórias
E brasões
E suas tradições
Eu juro conservarei
Glorificando o labor
Se eu for valor
Ficarei na mesma teia
Prosseguirei trabalhando
Colhendo sementes e plantando
Com o mesmo sangue na veia"

O que há de mais curioso, contudo, em "Fiz por Você o que pude" não é isso, mas a evidência da humildade de Sua Majestade.
Quando o samba foi lançado, alguns críticos, súditos infiéis, incomodados com as conquistas do samba de Cartola mundo afora, logo apontaram o dedo para um “erro” de português que saltava aos olhos: “Eis que Jesus me premeia”.
É impressionante como algumas pessoas – e essa me parece uma característica típica dos críticos de arte – tem a capacidade de apontar a lua e só enxergar o próprio dedo.
Pronto. Estava demonstrado que, apesar se sua aparente erudição, Mestre Cartola, por sua origem muito humilde e sua formação acadêmica frágil – estudou, apenas, até a quarta série do primário - não dominava os segredos da língua.
E cá entre nós, “premeia” é jogo duro, mesmo.
Ao ouvir as críticas, Sua Majestade ficou cabisbaixa e passou até a evitar de cantar o samba, mas entre amigos, confessou a razão de seu equívoco. No momento da composição, ficou em dúvida, mas leu, nos sermões de Padre Antônio Vieira: 'Assim castiga, ou premeia Deus'.
De fato, Cartola, monarca do samba, poderia até ser acusado de plagiar Padre Vieira, mas não de ignorância. Afinal, em arte popular, a majestade também se faz na humildade.

Fonte: www.nelsonsargento.com.br

6 comentários:

Mariano disse...

Muito bom o post... sem quis saber a razão dessa musica do Mestre Cartola...

Vlw kra..

Mais eu acho que o Sargento poderia ser bem melhor se tivesse seguido a risca os ensinamentos de Cartola

laorlando disse...

Olha aí a comprovação da história do "premeia" num dicionário português na Net. Lá em Portugal é premeia mesmo.
http://www.priberam.pt/DLPO/
Abraços!

Luís Nader disse...

PASQUALE CIPRO NETO

"Eis que Jesus me premeia"

Não custa saber e entender que as línguas apresentam variações de uso, época, situação, região etc.

HÁ POUCOS DIAS, comemorou-se o centenário do nascimento de Angenor de Oliveira, o inspirado compositor e cantor Cartola, autor de maravilhas como "As Rosas Não Falam", "O Mundo É Um Moinho" etc.
Dia desses, o querido amigo Chico Pinheiro me contou uma boa história sobre "Todo Tempo Que Eu Viver", que Cartola compôs para a Mangueira, escola de samba da qual o compositor foi fundador. Belíssima, a letra inclui uma forma verbal que causou polêmica quando Cartola apresentou a canção a alguns possíveis interessados em gravá-la.
Vamos à letra: "Todo tempo que eu viver / Só me fascina você, Mangueira / Guerreei na juventude / Fiz por você o que pude, Mangueira / Continuam nossas lutas / Podam-se os galhos, colhem-se as frutas / E outra vez se semeia / E no fim desse labor / Surge outro compositor / Com o mesmo sangue na veia / Sonhava desde menino / Tinha o desejo felino / De contar a tua história / Este sonho realizei / Um dia a lira empunhei / E cantei todas as tuas glórias / Perdoa-me a comparação / Mas fiz uma transfusão / Eis que Jesus me premeia / Surge outro compositor / Jovem de grande valor / Com o mesmo sangue na veia".
O prezado leitor já sabe qual é a forma verbal que causou polêmica?
Sim, é "premeia" mesmo. Parece que muita gente se recusou a gravar essa canção justamente por causa dessa "indevida" flexão verbal.
Vejo num texto de Luis Nader que, quando a canção foi lançada, alguns críticos "logo apontaram o dedo para um "erro" de português que saltava aos olhos". O tal "erro" era justamente a forma "premeia".
Ainda de acordo com Nader, Cartola ficou triste com as críticas e até deixou de cantar o samba, porém, entre amigos, disse que, no momento da composição, ficou em dúvida, mas, como lera "premeia" em ninguém menos do que Vieira, acabou empregando essa flexão verbal "errada".
Peço ao leitor que leve em conta as aspas em "erro", "errada" etc. Para quem não captou o porquê das aspas: não há erro em "premeia". A questão é outra; não é de erro ou acerto. De fato, há "premeia" não só em Vieira, mas também em muitos clássicos portugueses e brasileiros.
Na língua viva de Portugal, formas como "negoceia" e "premeia" apresentam uso corrente; no português brasileiro formal moderno, essas flexões não encontram registro, e aí está o nó da letra de Cartola.
Como a letra toda é escrita num padrão muito próximo da formalidade (Cartola emprega, por exemplo, o verbo no plural nas passagens "podam-se os galhos, colhem-se as frutas" -na oralidade brasileira e muitas vezes na escrita nem sempre se verifica esse procedimento), a presença de "premeia", que "corresponde a um registro ruralizante ou popularizante" ("Houaiss"), talvez choque ouvidos mais habituados ao padrão formal brasileiro, em que prevalece o emprego de "premia".
De fato, dicionários e gramáticas brasileiros dão o verbo "premiar" como regular ("premio, premias, premia, premiamos, premiais, premiam"), mas não custa aprender a lição do genial Cartola. Também não custa saber e entender que as línguas apresentam variações de uso, época, situação, região etc.
Além do mais, se Cartola está com Vieira ("monumento da língua portuguesa", de acordo com Pessoa), está em boa companhia, não? É isso.

inculta@uol.com.br
(publicado na Folha de São Paulo em 06/11/2008)

Luís Nader disse...

PASQUALE CIPRO NETO

"Guerreei na juventude"

Os que vêem algum desvio em "guerreei" devem supor que haja algum problema na terminação "eei". Não há

NA SEMANA PASSADA, trocamos duas palavras sobre a letra de uma canção de Cartola, em que o grande compositor empregou a forma verbal "premeia" ("Eis que Jesus me premeia"). Apoiando-me num texto de Luís Nader, informei que alguns dos supostos interessados em gravar a música desistiram da empreitada, justamente por causa do "erro" nessa flexão verbal.
Pois o próprio Luís Nader me escreveu para informar que outra flexão verbal presente na antológica letra de Cartola causou polêmica e foi apontada por alguns críticos como "errada". Trata-se de "guerreei", presente nesta passagem: "Guerreei na juventude, / Fiz por você o que pude, Mangueira". "Devo ter faltado a essa aula, pois não percebo erro algum", diz Nader, que (eu não sabia) foi meu aluno no já longínquo 1989.
Não sei se Nader faltou à tal aula, mas vejo que ele não precisou dela para saber que de fato não há erro algum em "guerreei". Os que vêem desvio em "guerreei" talvez suponham que haja algum problema na terminação "eei", que ocorre na primeira pessoa do singular do presente do indicativo de todos os verbos terminados em "-ear" ("desnorteei", "receei", "penteei", "clareei", "presenteei", "cabeceei", "guerreei" etc.).
De fato (e cá entre nós), a grafia desse bendito grupo "eei" não é flor que se cheire. Na prática, é muito mais comum que o emitamos como "iei" (quem é que nunca disse "Pentiei o cabelo" ou "Clariei a roupa"?).
É sempre bom lembrar que grafia é, antes de tudo, convenção. E o que diz a convenção nesse caso?
Vamos por partes. Temos aí o pretérito perfeito do indicativo de verbos terminados em "-ar". Apanha-se o radical desses verbos (obtido com a supressão do grupo "-ar" do infinitivo) e acrescentam-se as terminações regulares desse tempo, que são as seguintes: "-ei", "-aste", "-ou", "-amos", "-astes", "-aram".
Quer fazer o teste? Pois apanhe o radical de qualquer verbo regular terminado em "-ar" e anexe a ele as terminações que encerram o parágrafo anterior. Vamos lá: o radical de "andar" é "and-", certo? Pois ao radical "and-" anexe "-ei", "-aste", "-ou", "-amos", "-astes", "-aram".
Que saiu disso? Vamos lá: "andei, andaste, andou, andamos...".
Agora voltemos ao glorioso verbo "guerrear", cujo radical é... Antes é preciso lembrar que, no presente do indicativo (e nos tempos derivados), os verbos terminados em "-ear" apresentam uma irregularidade. Tomemos como exemplo o próprio verbo "guerrear": "guerreio, guerreias, guerreia, guerreamos, guerreais, guerreiam". Como se vê, surge um "i" depois do radical em quatro flexões (o que não ocorre nos regulares: "ando, andas, anda, andamos, andais, andam").
Mas voltemos ao verbo "guerrear", cujo pretérito perfeito é regular (como o é o de todos os verbos terminados em "-ear"). Qual é mesmo o radical desse verbo? É "guerre-" (não esqueça que se obtém o radical com a eliminação da terminação "-ar": "guerrear" -"ar" = "guerre-"). Pois bem. Ao radical "guerre-" acrescentaremos as terminações "-ei", "-aste", "-ou"... Já fez as contas? O resultado só pode mesmo ser "guerreei", "guerreaste", "guerreou", "guerreamos...".
Como se vê, o grande Cartola mais uma vez tinha razão. É isso.

inculta@uol.com.br
(texto publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 13/11/2008)

Luís Nader disse...

Muito me honra saber que o blog é lido pelo Prof. Pasquale. É um forte estímulo para continuar escrevendo.
Sobre o nome da canção, que no texto do Professor consta como sendo "Todo o tempo que eu viver", trata-se de título menos usual, que aparece no disco "No Tom da Mangueira".

Brunno disse...

Fantástico!

Uma verdadeira aula.