terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sampa

Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destroi coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

© Editora Gapa



Quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João, meu coração paulistano não sofre grandes abalos, a não ser por uma leve vontade de gastar quinze minutos com um chopp no terraço do Bar Brahma.
Consta, porém, que não é o que se passa com o coração de quem chega por aqui, sem nada entender. E assim se deu com Caetano, em 1965, quando, ao lado da mana Bethânia, viu seu coração vagabundo cruzar palpitante as avenidas que se cruzam e que sua canção ajudou a imortalizar.
Na verdade, a Avenida São João já havia sido imortalizada por cenas de sangue num bar cantadas em Ronda, de Paulo Vanzolini. Aliás, a frase melódica do último verso de Ronda ("cena de sangue num bar na Avenida São João") é reproduzida na introdução e nos versos finais de cada estrofe de Sampa.
O compositor paulista não gostou da citação e, a cada rara entrevista que concede, não perde a oportunidade de espinafrar o baiano, acusando-o de plágio. Costuma dizer que "Sampa é puro marketing".
Ao meu ver, é incompreensível a postura do sempre enfático e coerente Vanzolini, pois ao citar sua música em Sampa, fica claro que Caetano considerou Ronda, que já havia sido gravada por Bethânia, uma canção capaz de traduzir a cidade que ele pretendia homenagear. Trata-se, portanto, também, de uma homenagem a Paulo Vanzolini. Ainda que por tabela.
Mas Ronda é, apenas, a primeira homegeada, já que a canção é repleta de citações e homenagens a São Paulo e seus personagens, a começar por Rita Lee, eleita a mais completa tradução da cidade, e sua banda, Os Mutantes, composta por ela e pelos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, responsáveis pela face mais rock'n roll do tropicalismo e da música popular brasileira.
O "avesso do avesso do avesso do avesso" é referência direta ao poeta concretista Décio Pignatari e sua luta pelo avesso. O irmãos Haroldo e Augusto de Campos surgem como "poetas de campos e espaços". É a dura poesia concreta nas esquinas de Caetano.
Em 1969, na montagem do Teatro Oficina de “Selva das Cidades”, de Bertold Brecht, a arquiteta e cenógrafa Lina Bo Bardi colocou meia dúzia de troncos de árvores abatidas para a construção do Minhocão num ringue de boxe. No fim da cena, ironicamente chamada de “Área Verde”, os troncos desmoronavam. Caetano ficou impressionado com a obra do Diretor José Celso Martinez Corrêa e, quando compôs Sampa, rendeu esta homenagem ao teatro paulistano, mencionando as "Oficinas de Florestas" da cidade. Hoje, José Celso defende o fim do Minhocão e a instalação de uma imensa área verde no entorno do teatro, localizado no paulistaníssimo bairro do Bixiga. Em retribuição à homenagem de Caetano, tal área será batizada de Oficina de Florestas.
Ainda que em tempos de aquecimento global São Paulo alterne momentos de estiagem e outros de enchentes, houve um tempo em que São Paulo era conhecida como "terra da garoa". Não seria de se estranhar que os "deuses da chuva" citados em Sampa fizessem menção a esta alcunha. O mais provável, porém, é que o termo faça referência ao romance "Deus da Chuva e da Morte", do poeta e compositor paulistano Jorge Mautner, amigo e parceiro de Caetano, muito próximo ao tropicalismo. Referência para a turma da Tropicália, o livro PanAmérica, de José Agrippino de Paula, também abocanhou sua citação.
Aliás, impressiona no Tropicalismo, especialmente na obra de Caetano, a tendência à auto-referência. Será que Narciso acha feio o que não é espelho?
Mas a turma da Bossa Nova também costuma merecer a atenção do bom baiano.
Johnny, volta pro Rio. São Paulo é o túmulo do samba”. Foi o que disse Vinícius de Moraes para Johnny Alf, quando este foi importunado por um cliente da boate La Cave, completamente embriagado. O autor de Sampa assinou embaixo da provocação do poeta. O curioso é que este já havia feito, muito antes dessa polêmica, em 1954, por ocasião do IV centenário da cidade, em parceria com o pernambucano-carioca, cronista, radialista, poeta, boêmio e cardispliscente Antonio Maria, o belo "Dobrado de Amor a São Paulo", cujo verso final - notem a coincidência - faz o sol encontrar o poeta na Avenida São João. Sempre a São João. (veja a letra completa nos comentários a este texto)
Por fim, quando "Novos Baianos passeiam na tua garoa", faz-se referência ao conjunto musical composto por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo (hoje, do Brasil), Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, sempre apoiados pelos meninos da Cor do Som.
Assim, milhões de novos pernambucanos, paraibanos, cearences, alagoanos, sergipanos e, por que não, baianos, ainda podem curtir São Paulo numa boa. Vêm com outro sonho feliz de cidade. Não há mais garoa, nem lhes sobra muito tempo para o passeio. A força da grana os oprime nas filas, vilas, favelas. Correm entre carros, com suas motocicletas, lutando para não engordarem as mórbidas estatísticas. Aprenderam depressa que o outro nome de Sampa é realidade, mas seguem construindo a cidade para que ela um dia se transforme, quem sabe, em suas Áfricas utópicas, seus mais possíveis novos quilombos de Zumbi.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Trem das Onze


Não posso ficar
Nem mais um minuto com você
Sinto muito amor
Mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
E além disso mulher
Tem outra coisa
Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho único
Tenho minha casa pra olhar

Com todo o respeito a Rita Lee e ao compositor baiano, a mais completa tradução de Sampa chama-se Adoniran Barbosa. Para muitos, "Trem das Onze" é a mais completa tradução de Adoniran. Ledo engano.
Primeiro porque o compositor morria de medo de andar de trem - temia ficar preso entre as portas quando estas se fechassem. De outra parte, Adoniran se caracterizara por adotar em suas canções a linguagem popular, compondo em português errado. O compositor se defendia: "Não adianta querer falar errado. Tem que saber falar errado".
O certo é que "Trem das Onze", que ganhou o primeiro prêmio no concurso de músicas de carnaval no 4º Centenário da cidade do Rio de Janeiro com o grupo Demônios da Garoa, em 1964, saiu sem erros de português. Exceto um.
Várias das canções de Adoniran homenageavam bairros e ruas da cidade que ele, boêmio inveterado, se gabava por conhecer pessoalmente. De fato, conhecia São Paulo como poucos, mas conta o compositor e biólogo Paulo Vanzolini, outra fiel tradução da Paulicéia, que no Jaçanã ninguém diz "em Jaçanã", como está em "Trem das Onze". Todos falam "no Jaçanã". Foi tirar satisfação e ouviu do amigo: "E eu lá sei onde é essa porcaria."
Parece que, apesar da foto ao lado, o Jaçanã Adoniran não conhecia tão bem.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

João e Maria


(Sivuca/Chico Buarque)
1977

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim


1977 © by Cara Nova Editora Musical Ltda. Av. Rebouças, 1700 CEP 057402-200 - São Paulo - SP, Marola Edições Musicais
Todos os direitos reservados. Copyright Internacional Assegurado. Impresso no Brasil

A melodia é de Sivuca e data de 1947. Sivuca a compôs aos 17 e usava sua valsa recém saída do forno para coroar as lindas princesas de seus sonhos com belas serenatas ao luar do Recife. O pião já não era seu brinquedo, seu bicho preferido tinha outro sexo e andava nua em seu país. Seu futuro parceiro, na época com 3 anos, ainda mal armava seu bodoque.
E, por trinta anos, assim seguiu esta música, sem nome, servindo às serenatas de seu autor. Até que o dramaturgo Paulo Pontes, que estava organizando o repertório para uma apresentação de Elizeth Cardoso no Canecão, decidiu que ao show cairia bem uma parceria entre o já consagrado Chico Buarque e o Mestre Sivuca. Resolveu promover o encontro.
Sivuca, pensando no vozeirão da Divina Elizeth, desenterrou sua valsa romântica. Mas Chico estava em outra. Estava mergulhado no universo infantil, havia acabado de fazer a versão para o português do musical italiano “Saltimbancos”. A “idade” da música também influiu, como explica o próprio compositor em entrevista a Geraldo Leite (Rádio Eldorado, 1989): “Cada música tem uma história. Eu tenho uma parceria com o Sivuca que é engraçada. Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1947, por aí. Eu falei: "Mas isso foi quando eu nasci." A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: "Fiz essa música em 47." Aí pensei: "Mas eu criança..." e me levou pra aquilo. Cada parceria é uma história. Cada parceiro é uma história."
O nome da canção remete ao clássico conto de fadas dos irmãos Grimm, no qual duas crianças que se perdem na floresta por terem marcado o caminho com migalhas de pão e são capturadas pela bruxa malvada.
A música que servira de base para as cantadas de Sivuca seguiu outro caminho, aderiu ao universo infantil e acabou por abrigar uma conversa de crianças.
A canção não integrou o repertório de show de Elizeth. Não tinha mais cabimento. A primazia da primeira gravação coube a Nara Leão, princesa linda de se admirar, em dueto com o próprio Chico, arranjos de Sivuca, João Donato no teclado, Luizão Maia, contrabaixo, Meireles, flauta, o mesmo Sivuca no violão e na sanfona, e Paulinho Braga, bateria. A música estourou com a participação na trilha sonora da novela Dancin`Days e, até hoje, não pode faltar nos shows de Chico Buarque.
Agora, era fatal que o faz-de-conta terminasse assim. Em 14 de dezembro de 2006, Sivuca sumiu do mundo sem nos avisar. A música brasileira perdeu um Mestre.
Pra lá deste quintal, com a abertura política, finalmente, a noite teria um fim. Chico Buarque, crítico mordaz da ditadura militar, agora era o herói.
Quanto ao cavalo que fala inglês, consta que o próprio Chico nunca soube muito bem o que ele mesmo quis dizer. De acordo com o amigo e parceiro Francis Hime, deve ser “um cavalo muito educado."
Fontes.:
-Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989
- Livro 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34
- http://www.gafieiras.com.br/Display.php?Area=Entrevistas&SubArea=EntrevistasPartes&ID=29&IDArtista=28&css=1&ParteNo=14

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Não Quero Mais Amar a Ninguém

Não quero mais
Amar a ninguém
Não fui feliz
O destino não quis
O meu primeiro amor
Morreu como a flor
Ainda em botão
Deixando espinhos
Que dilaceram meu coração

Semente de amor
Sei que sou desde nascença
Mas sem ter vida e fulgor
Eis minha sentença
Tentei pela primeira vez um sonho vibrar
Foi beijo que nasceu
E morreu sem se chegar a dar

Às vezes dou gargalhada
Ao lembrar do passado
Nunca pensei em amor, nunca amei nem fui amado
Se julgas que estou mentindo jurar sou capaz
Foi simples sonho que passou e nada mais.


Nos idos de 1937, quando foi composto este samba, os morros cariocas viviam um período especial. Em que pesem as dificuldades que sempre caracterizaram a vida de seus moradores, o samba estava em alta e o ritmo ali criado e digerido começava a ser difundido pelo resto do País, invadindo as luxuosas noites do Cassino da Urca, com o Regional de Benedito Lacerda.
O gênero ganhava certo glamour e os chamados "sambas de terreiro", hoje denominados “sambas de quadra”, se multiplicavam pelos morros. Eram compostos e mostrados às pastoras e instrumentistas de plantão para que eles os reproduzissem em futuras rodas. Não eram escritos, nem gravados, mas elaborados por seus autores, repassados aos sambistas e reproduzidos à exaustão, até que a letra fosse memorizada pelas pastoras.
Nesse processo minemônico, era natural que alguns versos sofressem pequenas alterações, na base do quem-conta-um-conto-aumenta-um-ponto.
Apesar de ter levado seus estudos apenas até a quarta série, a qualidade das letras de Cartola é reconhecida por todos os críticos e aficcionados por música brasileira.
Se bem que, no Brasil, em 1937, estudar até a quarta série era quase um sinal de erudição, pois boa parte da população não era, sequer, alfabetizada.
Com seus versos refinados, seria natural que "Não Quero Mais Amar a Ninguém" não escapasse de pequenos reparos que facilitassem sua compreensão pelo grande público. Convenhamos que expessões como “deixando espinhos que dilaceram meu coração” não deveriam ser das mais usuais no Morro de Mangueira.
Pois qual não foi a surpresa de Cartola, ao retornar ao terreiro da Escola para conferir seu samba, ouvi-lo ligeiramente modificado na bela voz aguda das pastoras, que, com a cabeça nas luxuosas noites do Cassino da Urca, entoavam apaixonadas: "...Deixando espinhos, Benedito Lacerda do meu coração".
Dilacerado ficou o samba de Cartola.
PS.: Este samba foi gravado, ainda em 1937, por Aracy de Almeida, na Victor, e tirou o primeiro lugar entre os sambas-enredo das escolas de samba daquele ano. Com a letra certa, é claro...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Voltei a Cantar

(Lamartine Babo)

Voltei a cantar
porque senti saudade
do tempo em que eu andava pela cidade
Com sustenidos e bemóis
Desenhados na minha voz
E a saudade rola, rola
Como um disco de vitrola
Começo a recordar
Cantando em tom maior
E acabo no tom menor

Voltei a cantar
porque senti saudade
do tempo em que eu andava na cidade
Com sustenidos e bemois
Desenhados na minha voz
Ó meu samba, velho amigo
Novamente estou contigo
Uma vida me transtorna
Como um filho à casa torna
De ti nunca me esqueci


Este samba de Lamartine Babo, que ganhou notoriedade na voz de Mário Reis, foi o escolhido por Chico Buarque para abrir seu show “Carioca”, depois de sete anos de recesso. No show “Paratodos”, o cantor já havia composto “De volta ao Samba” com o mesmo fim: desculpar-se com seus fãs por tão longa ausência.
Desta vez, talvez por reconhecer a genealogia de seu canto, Chico Buarque tenha optado por retornar aos palcos homenageando Mário Reis e tomando emprestados os versos de Lamartine, carioca como ele e o nome de seu show.
Mário Reis era dono de voz fina como a de Chico, descobridor de divisões inusitadas, mestre no uso do microfone e destoava dos cantores de vozeirão, predominantes nos anos 30 e 40. Foi um dos principais intérpretes da obra de Noel Rosa e - o que muitos não sabem - chegou a gravar, já em fim de carreira, "A Banda", de Chico Buarque.
Além disso, Mário Reis era um bon vivant. Morou muitos anos no Copacabana Palace e privava da companhia dos mais ricos aristocratas cariocas. Talvez por isso, às vezes, sua carreira era negligenciada e Mário anunciava que iria encerrá-la. Depois mudava de idéia, retomando-a e redobrando o sucesso. Obviamente, foi numa dessa ocasiões, em 1939, que Lamartine Babo compôs “Voltei a Cantar” a pedido do amigo, para que este abrisse seu show de retorno “Jujoux e Balangandans”, no Theatro Municipal.
Mas este texto presta-se menos para refletir sobre a música de abertura de “Carioca” e mais para anunciar a retomada do blog.
Dos nove meses que levaram à gestação deste texto, os últimos três foram gastos pensando na desculpa que daria aos meus leitores, que já somam mais de três, de acordo com levantamentos de copos seriíssimos por mim efetuados ao longo deste período.
A verdade irrefutável é que fui acometido de uma súbita e alongada preguiça macunaímica de escrever. Mas não pensem vocês que adquiri vergonha na cara. Isso jamais!
Portanto, podem voltar a passar por aqui de vez em quando, que devem pintar algumas novidades. Me aguardem.
Voltei a cantar porque senti saudade.

sábado, 1 de setembro de 2007

Ronda

(Paulo Vanzolini)

De noite eu rondo a cidade
A lhe procurar sem encontrar
No meio de olhares espio nas mesas dos bares
Você não está
Volto pra casa abatida

Desenganada da vida
No sonho eu vou descansar
Nele você está
Ai se eu tivesse quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, essa busca é inútil
Eu não desistia
Porém com perfeita paciência
Sigo a procurar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E nesse dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar da avenida São João.


Paulo Emílio Vanzolini é diretor do Museu de Zoologia da USP e uma das maiores autoridades em herptologia do mundo. Pra quem não sabe, como eu não sabia até ontem, herptologia é a área da biologia destinada ao estudo de cobras e lagartos.

Talvez, por isso, ao se dedicar a compor nas rodas da boemia, Paulo Vanzolini destilou seu veneno em pérolas da música popular brasileira. Se a maior parte de seu repertório, assim como seus estudos em herptologia, é desconhecida do grande público, Ronda e Volta por Cima encontram-se entre as canções mais executadas do Brasil, rendendo alguns níqueis ao compositor, que, com o dinheiro recebido dos direitos autorais dessas canções, montou uma das maiores bibliotecas da América Latina na área de répteis e anfíbios.

Apesar do sucesso, o compositor não se cansa de soltar cobras e lagartos sobre Ronda, sua música mais famosa. Considera a canção “piegas”, uma “bobagem que fez aos 21 anos", quando estava no Exército e fazia ronda no baixo meretrício:

A coisa mais engraçada é que o povo acha que Ronda é um hino a São Paulo, mas na verdade ela é sobre uma mulher da vida (risos). Naquela época, servindo o Exército, eu patrulhava o baixo meretrício. Uma noite, na saída, eu estava tomando um chope ali pela avenida São João, quando vi uma mulher abrindo a porta do bar e olhando para dentro. Imaginei que ela estava procurando o namorado. Ele pensava que era para fazer as pazes, mas o que ela queria era passar fogo nele (risos).”

Claro que o dinheiro referente aos direitos autorais de Ronda não vem das grandes gravadoras, nem, tampouco, das rádios comerciais, mas dos pedidos feitos em guardanapos molhados de lágrimas nos botecos, em que o título da canção é, muitas vezes, confundido com o da moto japonesa: “Toca Honda”, pedem os boêmios de cotovelos doloridos.

O compositor se diverte com o feito: “Claro que eu recebo o dinheiro que entra de bom coração. (...) Japonesa fica com dor de corno e vai ao karaokê cantar Ronda”.

Ronda foi feita em 1945, mas foi gravada, somente, em 1953. Segundo Vanzolini, Inezita Barroso, muito amiga de sua mulher, foi para o Rio de Janeiro gravar A Moda da Pinga. A gravação seria num sábado à tarde e o casal foi junto para fazer companhia. Chegando lá, perguntaram a Inezita que música seria gravada no lado B do disco. O verso de A Moda da Pinga deve ter-lhe subido à cabeça: “A marvada pinga é que me atrapaia...”. Tremenda dor de cabeça. Àquela altura do campeonato, em pleno sábado, Inezita podia ser, como é, ainda hoje, conhecedora de um vasto repertório, mas onde conseguiria a autorização do autor? Foi por isso que gravou Ronda. E, de acordo com o autor, ainda errou a letra na gravação.

Para ela, a história não foi bem assim:

Eu fui pro Rio gravar A Moda da Pinga. Gostaram muito, e 'do outro lado o quê?' O Paulo Vanzolini estava comigo no Rio, tinha ido fazer um trabalho de zoologia, nós éramos muito amigos e ele foi pro estúdio comigo. Aí ele olhou assim meio pedindo e eu falei: 'Tá bom, do outro lado vai Ronda, do Paulo Vanzolini'. Aí me perguntaram: 'O que é isso?' Falei: 'É um samba paulista'. Pra que eu falei isso. 'Samba paulista, São Paulo não tem samba'. Aí o Canhoto, que era o dono do regional que acompanhava, disse: 'Canta aí pra eu ouvir'. Aí eu cantei Ronda e foi aquele sucesso."

A letra que Inezita cantou e que encabeça esta publicação é um pouco diferente daquela eternizada pelas cantoras Márcia, Maria Bethânia e pelas japonesas com dor de corno que, há mais de cinquenta anos, invadem os Karaokês e alimentam os répteis e anfíbios da biblioteca de Vanzolini.


http://www.sescsp.com.br/sesc/hotsites/mpb4/07_inezita.htm - programa Ensaio, da TV Cultura, em 1998, aos 73 anos de idade.

http://cliquemusic.uol.com.br/br/Servicos/ParaImprimir.asp?Nu_Materia=1490

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Garota de Ipanema

(Antonio Carlos Jobim/Vinícius de Moraes)

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Da Patagônia a Vladivostok, todos conhecem “The Girl from Ipanema”. Que a nossa garota é das mais rodadas, ou melhor, das mais executadas do mundo, também não é novidade para quem vive entre o Oiapoque e o Chuí. Da Penha a Jacarepaguá, da mesma maneira, todos sabem que Tom Jobim e Vinícius de Moraes compuseram esta obra-prima num bar, em homenagem a Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, ou simplesmente Helô Pinheiro.
Antes da visão inspiradora, porém, a música de Tom chegou a receber outra letra de Vinícius, que nenhum dos dois gostou muito. A música se chamaria “Caminho do Mar” e teria a seguinte letra:
“Vinha cansado de tudo
De tantos caminhos
Tão sem poesia
Tão sem passarinhos
Com medo da vida
Com medo de amar
Quando na tarde vazia
Tão linda no espaço
Eu vi a menina
Que vinha num passo
Cheio de balanço
Caminho do mar”
“Caminho do Mar” foi feita para um musical de Tom e Vinícius chamado “Blimp!”, que não chegou a ser encenado. Na peça, os atributos da garota seduziriam um extraterrestre que pousava de disco voador na praia de Ipanema.
Eis que numa bela tarde de 1962, em Ipanema, no Bar Veloso, hoje "Bar Garota de Ipanema”, na esquina da Rua Prudente de Morais com a Rua Montenegro, hoje Rua Vinícius de Moraes, o poeta que viria a dar o nome à rua e seu parceiro, entre uma e outra cervejinha, inspirarados no corpo dourado moradora do número 22 da mesma Rua Montenegro, que passava caminho do mar, resolveram mudar a letra e o nome da música, para dar mais ênfase à Garota que ao Caminho.
Somente dois anos e meio depois, quando “Garota de Ipanema” já era “The Girl from Ipanema”, conhecida em todo o mundo na voz de Astrud Gilberto e no violão de seu marido João, com o auxílio luxuoso do sax de Stan Getz, a garota descobriu que era "a Garota" e retribuiu a gentileza convidando Tom e sua mulher, Thereza, para serem padrinhos de seu casamento.
Esta, pelo menos, é a versão oficial, questionada pelo jornalista, pesquisador e crítico musical João Máximo, em um artigo escrito para o jornal “O Globo”, intitulado “Um clássico rico também em boas histórias”.
O jornalista baseia sua versão numa suposta incongruência de datas: “O samba foi escrito em meados de 1962. E a divulgação do nome da musa aconteceu três anos depois. Quem na época trabalhava na revista ‘Fatos & Fotos’ sabe: o então misto de letrista e repórter Ronaldo Bôscoli, que há muito tempo andava de olho em Heloísa Eneida, vendeu o furo de reportagem ao editor e partiu com o fotógrafo Hélio Santos para mostrar ao mundo a verdadeira Garota de Ipanema. A reportagem foi um sucesso. E promoveu de tal forma o samba que Tom e Vinicius teriam achado melhor assumir que aquela era mesmo sua musa.”
E Vinícius o fez por meio de um texto chamado “A verdadeira Garota de Ipanema”, onde exalta as virtudes da Garota e de Jobim, comparando-o a Einstein. (Leia o texto de Vinícius no comentário a esta postagem).
Se João Máximo está certo em suas afirmações não se pode garantir, mas “Garota de Ipanema” é, de fato, como ele atesta no título de seu artigo, um clássico rico também em boas histórias.
Nos anos 60, Blota Jr. e sua mulher, Sonia Ribeiro, comandavam, na TV Record, o programa “Esta Noite se Improvisa”, em que os concorrentes testavam seus conhecimentos musicais . O apresentador dizia uma palavra e o concorrente que primeiro apertasse o botão colocado à sua frente, dirigia-se ao microfone e cantava uma música, que, obviamente, contivesse a tal palavra.
Os grandes nomes da MPB participavam do programa. Consta que Caetano Veloso era imbatível, seguido de perto por Chico Buarque, que, quando não se lembrava de nenhuma música, não se fazia de rogado e compunha uma na hora, citando, ou inventando, o nome do compositor e a data em que foi feita.
Um dos piores era Vinícius. Não que lhe faltasse conhecimento ou cultura musical. Segundo o poeta, em sua família diziam que ele cantou antes de falar. O que lhe faltava, na verdade, era agilidade para apertar o botão.
Certa noite, porém, Blota Jr. lançou seu bordão:
- A palavra é... “garota”.
Mais que depressa, com agilidade do menino criado na Ilha do Governador, Vinícius premiu o botão e, já aprumado no microfone, pôs-se a cantar, cheio de graça, “Garota de Ipanema”.
Mas cheia de graça, em sua música, quem passa é a menina. Na letra não tem “garota”.
E o poeta, sem graça, voltou ao seu posto, lembrando a garota que vira passar.

Fontes:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp0708200292.htm
http://www.garotadeipanema.com.br/historia_e_fotos_garota_de_ipanema.htm
http://www.jobim.com.br/
http://www.viniciusdemoraes.com.br/
Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Boi Voador Não Pode

Chico Buarque - Ruy Guerra
1972-1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra


Quem foi, quem foi
Que falou no boi voador
Manda prender esse boi
Seja esse boi o que for

O boi ainda dá bode
Qual é a do boi que revoa
Boi realmente não pode
Voar à toa

É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar

1972/1973 © by Cara Nova Editora Musical Ltda.

Nem que alguns senadores roguem aos céus, nem que a vaca tussa, boi não voa.
Esta marcha carnavalesca, composta por Chico Buarque e Ruy Guerra para a peça Calabar, tem servido de mote a vários protestos no Planalto Central contra os recentes escândalos envolvendo bois, vacas e outros ruminantes.
A peça é ambientada no Nordeste brasileiro, em meados do séc. XVII, no período da ocupação holandesa . Seu nome completo, Calabar, Elogio da Traição. Sua intenção, demonstrar que Domingos Fernandes Calabar, que abandonou as linhas portuguesas para aliar-se aos holandeses e, por isso, é tratado nos livros de história como grande traidor, na verdade, traíra, apenas, os interesses de Portugal, ao passo que os demais personagens traziam em seus ombros a culpa de alguma forma de traição, fosse de ordem conjugal, à sua raça, sua classe, ou ao Brasil.
Na realidade, as razões que levaram Calabar a fazer esta troca são desconhecidas, mas na peça, em sua opinião, o Brasil seria melhor se pudesse ser governado pela Holanda, ou melhor, pela Companhia das Índias Ocidentais, comandada por Maurício de Nassau, uma empresa ao invés de um Império, que promoveria um tratamento mais humano aos negros, a pacificação do país, a liberdade de culto, o desenvolvimento urbano.
Voltando à vaca fria, em uma das cenas, Nassau promete fazer uma ponte ligando Recife à Cidade Maurícia, para celebrar a paz com Portugal, mas um de seus aceclas o alerta de que o povo não tem “muita fé nessa ponte...Dizem que é mais fácil um boi voar...”, ao que o impávido colosso holandês responde: “Pois terão as duas coisas: a Ponte e o Boi! Viva Dom João Quarto, rei de Portugal!”.
Depois, quando finalmente inaugura a ponte, o personagem de Nassau cai no samba com o coro, entoando a marcha “Boi Voador não pode”, exibindo toda sua ginga holandesa e sua familiaridade com as coisas da Terrinha.
A cena encontra respaldo na história.
No dia 28 de fevereiro de 1644, um domingo, Nassau marcou a inauguração da tal ponte – hoje, “Ponte Maurício de Nassau” -, em comemoração à sua partida do Brasil. Para recuperar parte do dinheiro investido, haveria cobrança de ingressos e, para aumentar o público, o Conde holandês desafiou a gravidade e anunciou que faria “um boi voar” durante a inauguração.
E assim foi feito. Para o espetáculo, por ser manso e conhecido, foi escolhido o “boi do Melchior”, um animal de pêlo amarelado, famoso na cidade por entrar nas casas e subir as escadas. O bicho ficou ruminando o dia todo em frente ao Palácio do Governo. Ansioso, o povo vigiava incrédulo, pois sabia que se boi bravo não voava, o do Melchior não sairia do lugar.
Enquanto isso, em manobra digna dos mais astutos senadores brasileiros, Nassau ordenou que se arranjasse um pedaço de couro, de tamanho e cor iguais ao do boi exposto no Palácio, que foi empalhado e inflado como um balão. Amarrado em cordas bem finas, invisíveis ao público que lotava a praia e os barcos, o “boi voador” foi preso por roldanas e controlado por alguns marinheiros, que faziam o bovino fantasma dar piruetas em pleno ar, para delírio dos pagantes e de Maurício de Nassau, que, com a venda de ingressos, recuperou boa parte do dinheiro investido na ponte.
Por causa disso, em Brasília, até hoje, ainda há quem acredite em obras faraônicas e bois voadores. É verdade que eles custam muito mais caro que seus colegas terrestres. Mas boi voador não pode. É fora do ar. É fora da lei. Por isso, o povo canta:
-“Manda prender esse boi, seja esse boi o que for!”

Fonte: GONÇALVES, Fernando Antônio. O Capibaribe e as pontes. Recife: Comunigraf, 1997. 86p.
BUARQUE, Chico e GUERRA, Ruy. Calabar: Elogio da Traição– 20 ed. Com texto revisado e modificado pelos autores. Rio de Janeiro: Civilação Brasileira, 1995.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Torresmo à milanesa


(Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro)

O enxadão da obra
Bateu onze horas
Vamo se embora, João
Vamo se embora, João
Que é que você troxe

Na marmita, Dito?

Truxe ovo frito
Truxe ovo frito
E você, Beleza,
o que é que você troxe?
Arroz com feijão
E um torresmo à milanesa
Da minha Tereza
Vamos almoçá
Sentados na calçada
Conversarmos sobre isso e aquilo
Coisas que nóis não entende nada

Depois, puxa uma palha
Andar um pouco
Pra fazê o quilo
É dureza, João...
É dureza, João...
O mestre falô
Que hoje não tem vale, não
Ele se esqueceu
Que lá em casa num só eu...


Sete da madruga e os caras já estão na labuta pesada, muitos tomando a primeira cachaça para afastar a fome e espantar os fantasmas da dura realidade. Às onze, a batida do enxadão anuncia a hora de conferir a marmita preparada na noite anterior pela mulher, que terá sua memória celebrada no sabor e na cor do feijão. Claro, se houver mulher, se houver feijão.
Em Torresmo à Milanesa, entretidos com suas marmitas, os peões conversam acaloradamente sobre coisas que não entendem nada. O torresmo colocado na marmita de Dito, provável Benedito, evidencia mais um traço da cultura nordestina que ajuda a construir São Paulo. O colega Beleza, por sua vez, deve ter recebido a alcunha em virtude de seus atributos físicos, ou à falta de virtude destes.
Além de cantar São Paulo, assim como na maioria de suas composições, Adoniran traz, em Torresmo à Milanesa, uma das características mais marcantes de sua obra: rir da própria desgraça, aproveitar a miséria para fazer humor.
Em 1980, Adoniran incluiria a canção em seu último disco, “Adoniran Barbosa e Convidados”. A capa, a cargo de Elifas Andreato, traria, inicialmente, o desenho de um palhaço triste. O pessoal da gravadora não gostou e convenceu Elifas a refazê-la, sob o argumento de que talvez “Adoniran não entenderia esse negócio de palhaço”. O disco foi lançado com um belo retrato do compositor. O desenho do palhaço foi parar nas mãos de Fernando Faro, amigo de Adoniran e produtor do LP. Ao se deparar com sua própria figura transformada num palhaço chorando, nas mãos do amigo, Adoniran telefonou para Elifas: “Sou esse palhaço triste aqui, não esse alemão que você colocou no disco!”.
Torresmo à Milanesa foi feito pelo palhaço triste e não por qualquer outro Adoniran que vagasse pelas ruas de São Paulo. Este samba foi composto com Carlinhos Vergueiro, em meia hora, de pé, sem instrumentos, no balcão do antigo bar "Mutamba", na R. Major Quedinho, lugar muito frequentado por artistas, jornalistas e boêmios, pois ficava ao lado da Rádio e do estúdio Eldorado.
Chegando em casa, precavido, Carlinhos Vergueiro registrou o samba numa fita e, algum tempo depois, levou-a à casa do novo parceiro para os ajustes finais. O principal ajuste foi na marmita do Beleza. Perguntado por Dito sobre o conteúdo de sua bóia, este responderia: “Arroz com feijão e um bife à milanesa”.
Nesse momento, Adoniran pediu ao parceiro:
- Carlinhos, desculpe, vamo voltá a fitinha, canta torresmo à milanesa....
- Mas por que Adoniran?
- Porque não existe.
Este é o palhaço, que prefere o imaginário ao real. E assim, o verso ficaria “arroz com feijão e torresmo à milanesa”.
Carlinhos retomou o violão, voltou a fita e tornou a cantar o samba, para conferir se a nova letra funcionava.
Mas parece que Adoniran queria que Beleza sentisse fome. Ao chegar naquele pedaço, ele interrompeu novamente o parceiro:
- Desculpa Carlinhos, vamo voltá mais uma vez, canta só “um torresmo”...
- Mas por que Adoniran?
- Porque é mais triste!...
Por isso, os palhaços choram...

Fontes:
- http://vejasaopaulo.abril.com.br/entrevistas/m0117294.html
- papo de buteco com o amigo Mário Mammana, amigo de Fernando Faro, profundo conhecedor dos sambas e histórias de Adoniran, amante de cerveja e comedor torresmo, entre outras coisas.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Chico Mineiro

(1946)
Tonico e Francisco Ribeiro

Cada vez que me "alembro" do amigo Chico Mineiro, das viagens que eu fazia era ele meu companheiro. Sinto uma tristeza, uma vontade de chorar, se "alembrando" daqueles tempos que não há mais de voltar. Apesar de ser patrão, eu tinha no coração o amigo Chico Mineiro, caboclo bom e decidido, na viola delorido e era peão dos boiadeiros. Hoje porém com tristeza recordando das proezas das viagens e motins, viajamos mais de dez anos, vendendo boiada e comprando, por esse rincão sem-fim.
Mas porém, chegou o dia que o Chico apartou-se de mim.

Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás.
Foi eu e o Chico Mineiro
também foi um capataz.
Viajemo muitos dia
pra chegar em Ouro Fino
aonde nós passemo a noite
numa festa do Divino.
A festa estava tão boa
mas antes não tivesse ido
o Chico foi baleado
por um homem desconhecido.
Larguei de comprar boiada.
Mataram meu companheiro.
Acabou-se o som da viola,
acabou-se o Chico Mineiro.
Depois daquela tragédia
fiquei mais aborrecido.
Não sabia da nossa amizade
porque nós dois era unido.
Quando vi seus documento
me cortou o coração
de sabê que o Chico Mineiro
era meu legítimo irmão.


Por trás de grandes canções, normalmente, há uma parceria. Mas por trás de uma parceria, sempre há uma grande amizade.
Chico Buarque, que traz no rol de parceiros Tom Jobim, Edu Lobo, Toquinho, Francis Hime, Vinícius de Moraes, Fagner, Ivan Lins, Milton Nascimento, Gilberto Gil e Caetano Veloso garante: são todos seus amigos. Se não fossem não seriam seus parceiros. Não dá para fazer uma canção em conjunto sem ter um certo grau de intimidade e afinidade com o parceiro.
Vinícius de Moraes exigia fidelidade matrimonial de seus parceiros, certamente, com mais afinco do que o fazia em seus matrimônios.
Os parceiros “Carlos”, Roberto e Erasmo, chegavam a compor juntos ou separadamente, sem abrir mão de registrar as canções como sendo de autoria da dupla.
Por falar em dupla, no campo da música sertaneja, a coisa é um pouco diferente. Não existe Alvarenga sem Ranchino, Tião Carreiro sem Pardinho, Milionário sem José Rico, Tinoco sem Tonico, mas, na maioria dos casos, apenas um lado da moeda se encarrega das composições, buscando parceria em outra freguesia.
No caso de Tonico e Tinoco, por exemplo, é Tonico que assina com outros parceiros a maioria das composições da dupla, que é uma das mais longevas da música brasileira. Cantaram 50 anos juntos, de 1944 a 1994, quando Tinoco fez sua última viagem para um sertão mais longínquo que Goiás.
A música que levou a dupla a alçar vôos mais altos foi Chico Mineiro, de Tonico e Francisco Ribeiro. Tonico ouvia, desde criança, seu pai contar a “lenda” do Chico Mineiro. Alguns dizem que o apelido de Chico mudava de acordo com o Estado onde a lenda era contada. Podia ser Chico Mineiro, Goiano, Paulista...
No início da carreira, fizeram uma apresentação na Rádio Tupi e, na saída, o porteiro, que havia ouvido o programa e era, provavelmente, oriundo de algum sertão do Brasil, perguntou a Tonico se ele conhecia a história do Chico Mineiro. Os causos contados pelo pai se reacenderam na memória e, misturados ao som da viola, levaram-no a compor, sozinho, a canção.
Um fato curioso é que, quando foram gravá-la, a gravadora informou aos sertanejos que este seria seu último disco, pois os ouvintes reclamavam que não entendiam a sua pronúncia caipira do interior de São Paulo.
O leitor atento deve agora se perguntar: se Tonico compôs Chico Mineiro sozinho, quem é Francisco Ribeiro, que recebe em parceria os créditos da canção?
Trata-se do porteiro da TV Tupi, que fez com que o compositor se lembrasse da lenda do Chico Mineiro. Como prova de amizade e gratidão, Tonico deu-lhe a parceria.
Afinal, parceiro não precisa nem ser parceiro, mas tem que ser amigo.

Fontes:
Ranato Vivacqua -Música Popular Brasileira - Cantos e Encantos
http://www.widesoft.com.br/users/pcastro2/biograf.htm

domingo, 13 de maio de 2007

As Vitrines

Chico Buarque - 1982

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
-Dá tua mão
-Olha pra mim
-Não faz assim
-Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

1981 © - Marola Edições Musicais Ltda.
Todos os direitos reservados
Direitos de Execução Pública controlados pelo ECAD (AMAR) Internacional Copyright Secured


As Vitrines é a primeira faixa do LP Almanaque, de Chico Buarque.
O bolachão imita, em seu encarte, um almanaque de verdade, com o calendário de 1982 estampado de um lado, indicando o santo correspondente a cada dia do ano e, de outro, um horóscopo rodeado por pensamentos emoldurados, extraídos das letras das músicas do disco.
Na parte interna, o anúncio: “MAGAZINE ANNUAL ILUSTRADO. Anecdotas, Caricaturas, Informações, Charadas, etc.” Jogos, charadas e brincadeiras são assinados por Chico Buarque e Elifas Andreato, este também responsável por criação, pesquisa, edição e artes da capa.
Além da ficha técnica, várias ilustrações, fotos da gravação em estúdio imitando histórias em quadrinhos, brincadeiras e curiosidades:
10.09.82 comemoração do segundo aniversário do monumental Centro Recreativo Vinícius de Moraes. Como ponto máximo da festa, o sensacional embate entre o Politheama X Namorados da Noite, que contarão com suas forças máximas”.
Para quem não sabe, Politheama é o time do Chico, e Namorados da Noite, do Toquinho.
Voltando ao encarte. Para cada música, há uma brincadeira ou ilustração diferentes.
Na canção Ela é Dançarina, por exemplo, que traz o subtítulo eu quero dormir e ela precisa dançar, acima da letra, há um jogo de palavras cruzadas que traz, no esqueleto, as palavras “funcionário”, na vertical, e "dançarina", na horizontal.
Na verdade, Adelaide, a mãe do Julinho, pseudônimo criado pelo autor para driblar a censura, já criava palavras cruzadas para o Jornal do Brasil.
Fato é que não somente as cruzadas, mas os jogos com as palavras, em geral, sempre encantaram o compositor. Quando estava exilado em Roma, Chico Buarque tornou-se correspondente do Pasquim. Jaguar narra o episódio:
“Quando Chico era nosso homem na Itália toda semana a gente publicava matéria dele. Era um correspondente aplicado. (...)
Agora... Liguei para ele pedindo para escrever alguma coisa para o primeiro número do Pasquim paulista. "Minha agenda estourou. Tô enlouquecido, ensaiando o show com Bethânia para o dia 2 em Paris." "Pô, Chico, tremenda sacanagem nos deixar na mão!" "Fazer matéria nem pensar, mas se vocês quiserem um palíndromo..." Palíndromo, como talvez só o Houaiss saiba, é uma frase que significa literalmente o mesmo, seja lida de cá pra lá, como de lá pra cá, da direita para a esquerda. "Levei 5 horas fazendo", disse Chico. "Insônia." Era pegar ou largar. Peguei. (...).” (Jaguar).
Eis o palíndromo: “Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta
Mas este texto se propunha, ou se propõe, a dizer algo sobre a canção As Vitrines, esquecida lá no primeiro parágrafo.
No encarte do disco Almanaque, a letra de As Vitrines aparece dividida em quatro quadrantes, espelhada, dando a idéia de que seu teor se reproduz, a exemplo da personagem da canção, com “sua sombra a se multiplicar”, a iludir e encantar o leitor, admirador, ou poeta, “catando a poesia" que entorna no chão.
No primeiro quadrante está a letra original. Abaixo, a mesma letra, de ponta cabeça.
À direita, refletida, a letra segue seu caminho normal: “Eu te vejo sair por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não faz assim/-Não vai lá não”. Na estrofe seguinte, quando o leitor desatento do Almanaque espera ler os versos que ouviu, “Os letreiros a te colorir”, o poeta almanaqueiro surpreende e avisa: “Ler os letreiros aí troco”,
E passa, de fato, a trocar os versos originais por outros.Embaçam a visão marinha/Vi tuas fúrias e predileção/Errar sisuda, sã fora de eixos”.
Para quem elabora palavras cruzadas e faz palíndromos nos momentos de insônia, bolar anagramas não é das tarefas mais difíceis. Anagramas são palavras diferentes que possuem as mesmas letras, como Iracema e América.
A versão espelhada de “As Vitrines é inteira composta com anagramas dos versos da letra original!
“Abrindo um salão” se transforma em “um absalão rindo”.
Outra letra. As mesmas letras!
Confira...

As Vitrines////As Vitrines

Eu te vejo sair por aí////Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão//Te avisei que a cidade era um vão
-Dá tua mão////-Dá tua mão
-Olha pra mim////-Olha pra mim
-Não faz assim////-Não faz assim
-Não vai lá não////-Não vai lá não
Os letreiros a te colorir///Ler os letreiros aí troco
Embaraçam a minha visão////Embaçam a visão marinha
Eu te vi suspirar de aflição//Vi tuas fúrias e predileção
E sair da sessão, frouxa de rir//Errar sisuda, sã fora de eixos
Já te vejo brincando, gostando de ser//Doce vento, grandes beijos do jantar
Tua sombra a se multiplicar////Um militar saber tuas polcas
Nos teus olhos também posso ver//Bem postos meus versos antolhos
As vitrines te vendo passar////Patinavas, sorvetes, diners
a galeria////Na alegria
Cada clarão////A cara do clã
É como um dia depois de outro dia///Um doutor doido me cedia poesia
Abrindo um salão////Um absalão rindo
Passas em exposição//Pião, sexo, asa, espaço
Passas sem ver teu vigia//És súpita virgem avessa
Catando a poesia////A asteca do piano
Que entornas no chão///Quão sonha no center

Fontes: - Entrevista de Julinho de Adelaide a Mário Prata no jornal Última Hora - 07 e 08/09/74
-
Pasquim São Paulo Ano XVIII, número 13, a 10 de julho de 1986

P.S.: Depois de escrever esta crônica, o autor também se tornou um adicto em palíndromos. Pura falta de inspiração. Ou insônia. Se o Jaguar quiser, é pegar ou largar:
“Lá é retrô, fiel à lei forte real”
“Ata, berra, arrebata.”
“A labareda Nader abala”

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Meio-de-campo

Gilberto Gil
1973

Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, eu sou um Tostão.
Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão.


Mestre em aperfeiçoar o imperfeito, defensor da liberdade e proclamado inimigo da escravidão, Gilberto Gil prestou nesta canção justa homenagem ao ex-jogador Afonsinho.
Desde de 2001, os jogadores profissionais de futebol não estão mais acorrentados aos seus clubes pela Lei do Passe e devem isso ao ex-meia do Botafogo e hoje médico, Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho.
Assim como Gil, Afonsinho tinha convicções libertárias e foi o primeiro jogador profissional a conseguir, na Justiça, o passe livre.
É verdade que os jogadores não estão mais presos aos seus clubes, mas, em alguns casos, ainda são explorados por empresários gananciosos, mas o poeta alerta, era necessário desprezar a perfeição.
Tudo começou no final dos anos sessenta, quando Afonsinho, dando um tempo do barbeiro, cultivou bela barba e cabelo, desprezando a perfeição estética adequada à conduta de bom moço e meio-campista, exigida pelo então treinador do Botafogo, Mário Jorge Lobo Zagallo.
Que o Velho Lobo nunca foi Pelé nem nada não é novidade para ninguém, mas o fato é que o treinador proibiu a entrada de Afonsinho no clube, ou, pelo menos, de sua barba e vasta cabeleira.
Acorrentado, ofendido em sua dignidade, Afonsinho conseguiu na Justiça o direito de manter a barba e continuar jogando futebol, obtendo o passe livre. Era o início do fim da escravidão no futebol.
Hoje, com pouco cabelo, quase esquecido e ainda barbudo, Afonsinho pode se considerar um vitorioso em sua luta abolicionista, mas carrega a certeza de ter feito pelo futebol tanto quanto um Pelé ou um Tostão.
Este foi, sem dúvida, o gol mais importante de sua carreira. E olha que fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O Filho Que Eu Quero Ter

Toquinho/Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter


Pode até ser que Toquinho tenha sido alertado pela célebre frase de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria".
O fato, porém, é que não lhe deu ouvidos e, numa bela tarde, na praia de Boa Viagem, no Recife, contou a Vinícius sobre seu desejo de ter um filho. Experiente no assunto, o poeta respondeu algo como “Vai nessa! Dá trabalho, mas é muito bom.”
E Toquinho foi além. Mostrou-lhe uma melodia que havia composto inspirado naquele desejo, com uma levada típica de cantigas de ninar. Foi à praia e deixou o parceiro a embalar a música recém-composta.
Ao voltar, encontrou Vinícius aos prantos, com a letra pronta.
Toquinho costuma dizer que a vontade de ter filho era sua, mas Vinícius fez a letra pensando muito mais em si. O homem encantado com o sonho de ter um filho, vê-lo crescer e, ao final, em seu leito de morte, ser por ele embalado com a mesma canção com que o fazia ninar, embevecido por vê-lo reproduzir seu sonho de também ter um filho.
A canção foi lançada por Chico Buarque, no disco Sinal Fechado, em 1974. No ano seguinte, os autores incluem a canção no disco Vinicius de Moraes e Toquinho, da Philips, com direção e produção de Fernando Faro e capa do grande artista plástico e companheiro de futebol de Toquinho, Elifas Andreato.
Elifas, na época com aproximadamente 28 anos, não queria ter filhos, pois tinha alguns problemas de relacionamento com seu pai, mas confessa que esta canção mudou seu jeito de pensar.
Dois anos depois, nasceu Bento e o novo pai coruja foi contar a novidade para Vinícius, que respondeu apenas:
- Que bom! Só assim você poderá entender seu pai...

Fonte: “Impressões”, Elifas Andreato, Ed. Globo
CD Toquinho Exclusivo: Ensinando a Viver

terça-feira, 17 de abril de 2007

Gota d'Água

Chico Buarque/1975

Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
1975 © by Cara Nova Editora Musical Ltda.

A canção foi escrita para a peça.
A canção é só de Chico Buarque e a peça tem a co-autoria Paulo Pontes. Toda escrita em versos, o texto é uma adaptação da tragédia grega Medéia, de Eurípedes.
Inspirados numa idéia de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, os autores transportam a tragédia da Grécia para a Vila do Meio-Dia, conjunto habitacional de propriedade do onipotente Creonte, onde os mutuários quanto mais pagam, mais devem.
Interpretada por Bibi Ferreira, à época mulher de Paulo Pontes, Joana, a nossa Medéia, é abandonada por Jasão, compositor do grande samba“Gota d'Água”, sucesso nacional.
O samba de Jasão traduz o desamparo e o desespero da mulher abandonada:“Já lhe dei meu corpo, minha alegria”, (...) "olha a voz que me resta, olha a veia que salta”
Famoso, o compositor resolve se casar com Alma, filha de Creonte: “e qualquer desatenção, faça não! Pode ser a gota d'água!”. A tragédia está anunciada.
Para vingar-se, Joana compartilha com os filhos um bolo envenenado. Tragédia grega é assim, ainda que escrita na Tijuca.
No prefácio da peça, os autores analisam as mazelas da política econômica do Brasil de meados dos anos 70. Não bastasse a repressão militar, a política econômica começava a dar os primeiros sinais de sua agonia. Contudo, os autores ressaltam a voz que lhes resta, graças a alguns intelectuais que se insurgiam contra aquela falaciosa verdade neo-liberal, como por exemplo, a veia que salta de Antonio Cândido e o jovem professor da USP Fernando Henrique Cardoso, a gota que falta e o desfecho da festa.
Se Paulo Pontes fosse vivo, certamente os autores, hoje, editariam o prefácio, seguindo as orientações do ex-Presidente de que esquecessem o que ele ecreveu.
Voltando à canção, ou à peça...
Chico Buarque e Paulo Pontes foram contemplados com o Prêmio Molière. A cobertura da entrega seria feita em rede nacional pela TV Globo. Seria, porque houve cobertura, mas não houve entrega, pois os autores de recusaram a receber o prêmio.
Em entrevista concedida a Antônio Chrysóstomo, da Revista Veja, em 28/10/1976, Chico Buarque expõe seu pote até aqui de mágoa:
“CHICO — Muita gente disse: que atitude orgulhosa, antipática. Pois é, uma atitude antipática a gente tem de tomar de vez em quando. No caso, porque as pessoas se esqueceram de que, em 1975, quando "Gota d'Água" foi considerada a melhor peça, no mesmo ano, para citar só um caso, "Abajur Lilás", de Plínio Marcos, foi proibida. Neste mesmo ano, "Rasga Coração", de Oduvaldo Vianna Filho, teve abortada uma tentativa de encenação, também por ordem da Censura. Eu e Paulo Pontes conversamos e chegamos à conclusão de que seria pouco ético botar smoking e ir lá receber um prêmio que talvez nem fosse da gente. Se "Abajur Lilás" ou "Rasga Coração tivessem conseguido chegar ao público, portanto disputar aquele prêmio, será que nós teríamos sido os autores escolhidos? Por isso não fomos."
Isso foi o que ele disse ao repórter, mas poderia ter cantado:
- "Deixa em paz meu coração..."

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Tonga da Mironga do Cabuletê

Toquinho e Vinicius de Moraes


Eu caio de bossa eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa xingando em nagô
Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê



1970.
Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco “A Arca de Noé”, fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino.
Encontram o Brasil em pleno “milagre econômico”. A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais. O poeta é visto como comunista pela cegueira militar e ultrapassado pela intelectualidade militante, que pejorativa e injustamente classifica sua música de easy music.
No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria.
Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”.
O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves.
Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.
E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”.

Fonte: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.